Há poucos dias, me contaram uma história, enquanto meus olhos se perdiam da sonolência. A narrativa, de aparência desgastada, tinha três ou quatro folhas soltas pelo tempo e algumas linhas quebradas. Os fios que nos prendiam ao final feliz pareciam cortados por qualquer desatento, mas, ainda assim, me permitir a ouvi-la.
Enquanto soltávamos de um capítulo para o outro, a história percorria da comédia ao drama. Algumas vezes, nos perdíamos entre tantos parágrafos e períodos, mas você soube me segurar com firmeza. Tropecei em cada vírgula e você riu por todas tentativas de equilíbrio. No entanto, não conseguiu evitar os meus estilhaços, quando ouvi daquelas linhas as nossas despedidas e desencantos.
Procurei uma borracha e desejei apagar todas as frases que nos fizeram cair em prantos. Esfregava com vigor, sem puder e continuamente, porém nada se desfazia. Com um olhar de censura, você dizia que nenhum texto podia ser corrigido, pois as lembranças já não nos pertenciam. Cada folha, cada frase, rabiscos ou borrões foram vendidos ao tempo, em troca de vivermos sossegados longe um do outro.
Sem o mesmo ânimo, folheei mais algumas páginas e perguntei o motivo dessa nossa escolha. Ao olhar a capa, percebi os nossos nomes como autores, mas não éramos mais os donos, somente coadjuvantes do tempo. Fechei o livro e o guardei entre os meus pertences. Decidi te ter apenas nas entrelinhas.