domingo, 22 de maio de 2011

conto sem fadas

Há poucos dias, me contaram uma história, enquanto meus olhos se perdiam da sonolência. A narrativa, de aparência desgastada, tinha três ou quatro folhas soltas pelo tempo e algumas linhas quebradas. Os fios que nos prendiam ao final feliz pareciam cortados por qualquer desatento, mas, ainda assim, me permitir a ouvi-la.
Enquanto soltávamos de um capítulo para o outro, a história percorria da comédia ao drama. Algumas vezes, nos perdíamos entre tantos parágrafos e períodos, mas você soube me segurar com firmeza. Tropecei em cada vírgula e você riu por todas tentativas de equilíbrio. No entanto, não conseguiu evitar os meus estilhaços, quando ouvi daquelas linhas as nossas despedidas e desencantos.

Procurei uma borracha e desejei apagar todas as frases que nos fizeram cair em prantos. Esfregava com vigor, sem puder e continuamente, porém nada se desfazia. Com um olhar de censura, você dizia que nenhum texto podia ser corrigido, pois as lembranças já não nos pertenciam. Cada folha, cada frase, rabiscos ou borrões foram vendidos ao tempo, em troca de vivermos sossegados longe um do outro.


Sem o mesmo ânimo, folheei mais algumas páginas e perguntei o motivo dessa nossa escolha. Ao olhar a capa, percebi os nossos nomes como autores, mas não éramos mais os donos, somente coadjuvantes do tempo. Fechei o livro e o guardei entre os meus pertences. Decidi te ter apenas nas entrelinhas.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

o livro da capa branca

Em pé, lá estava eu.
Em mais uma fila dessa cidade que cheira a desordem.
Na tentativa de seguir adiante, após sacar algum dinheiro.

Apesar do incômodo que me cercava não recorri ao tempo como uma das formas de expressar a minha ansiedade. Eu não estava preocupado com as horas, mas não me importaria se a fila fluísse com rapidez. Na minha frente, duas mulheres. Duas idades distintas e semelhança física. Minha ideia de parentesco entre ambas foi confirmada quando peguei suas frases soltas.

"Mãe, pára com isso!"

Ouvir conversas alheias em filas, me serviu como distração. A partir disso, comecei a imaginar o que o senhor de blusa branca e pente azul no bolso, tanto cochichava ao olhar para o chão. Parecia brigar com a própria sombra.

E, apesar da minha aguçada imaginação tentar me desviar para outros diálogos, a curiosidade , que levo debaixo do braço, gritou em direção às duas mulheres na minha frente. De repente, aquele diálogo intimista parecia tomar outras proporções: uma vez que que também me atingiu como tiro de bala perdida.

A garota, com idade entre 20 ou 22 anos, levava na mão direita um livro de capa branca, ( daria meus poucos trocados na conta corrente para saber o título) . Se só me restavam míseros centavos, para a mãe da garota do livro misterioso, o dinheiro era o seu principal motor:

"Precisamos tomar cuidado ao sair do banco. Imagina se somos assaltadas?"

A verdade veio à tona quando suas palavras cortantes atravessaram o meu ouvido e o da sua filha também. E, sem reação, evitou maior constrangimento e lhe deu as costas:

"Se formos para ser roubadas, que levem esse livro e deixem a minha bolsa! Mas quem roubaria isso? É só um livro, afinal."

E ouvi uma gargalhada de embrulhar o estômago.

Foi quando eu senti um borbulho que subia pelo meu esôfago e vinha em direção a minha boca. Na ousadia de cuspi-lo em bom tom: "EU ROUBARIA UM LIVRO!"

Contive-me.

Não que eu me orgulho em roubar, porém o descaso que aquela senhora tivera pelo livro de capa branca com título misterioso, carregado cuidadosamente por mãos delicadas, me tirou do sério e quase da minha posição na fila.


Pois bem, eu roubaria um, dois ou cinco livros! Usava de arma branca, preta ou colorida. Bolava planos maquiavélicos, burlava placas e esconderia pistas. Daria minha cara a tapa e, se fosse os livros da Lispector, até algemado seria.

Tocaria o terror com batidas fortes no meu bongô. Trairia e amordaçava. Sequestrava a bibliotecária e não devolveria na segunda-feira aqueles livros emprestados. Seria preso e condenado à pena de morte, julgado pelo mundo e reprimido por minhas ações, mas eu roubaria, sim, um livro. É tão valioso tanto quanto o seu dinheiro, guardado naquela bolsa encardida, ofuscada por entre seu braço.

Chegou a minha vez.
Saquei os trocados.
Ainda revoltado com aquela situação.

Pobre garota, do livro de capa branca, se eu ainda soubesse o seu nome. Poderíamos ser grandes cúmplices. Alguém bem que poderia escrever algo sobre aquela menina, aquele livro e algum roubo...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

não ser intenso

Sou um copo d’água transbordando, porém muitas vezes desejei estar vazio.
Ansiei ser um corpo oco, frígido e sem cor.
Um corpo jogado as traças, sem vida e memória, que se levanta ao amanhecer sem causar barulho e nem sentir arrepios.
Mas sou uma obra melodramática.
Eu sinto o rubor em minha face e comichões no meu interior - nas minhas entranhas.

Sou o maior grau de intensidade queimando em brasas.
No entanto, desejo estar seco: sem suor e lágrimas.
Não jogo dados para cima e não tenho cartas em minha manga.
Meu peito é aberto.
Faço escolhas e não apostas.
Porém para quê? Para quem?
O maior peso que levo é o de ser alguém e de me levar como sou.
Não cogito mais absorver, mas deixo-me levar.
Sem sentir nenhum frescor, por favor.

Recuso-me a qualquer sensação e toda a antítese que está por vir.
Declino qualquer conflito e é áspera a sinestesia.
Deixe-me escolher o sentimento que me convém.
Essa profusão cega meus olhos.
Deixe-me esvaziar, sem experimentar, sem pestanejar...
Não quero mais o vento em meus cabelos, nem o cheiro das flores.
Eu só cobiço a ser um corpo calmo e sem gosto.
Sentir dói.