sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Carolina,

há um tempo, eu me tive por inteiro. Dono de mim, do meu próprio sabor. Lembro-me de sentar ao meu lado, contar histórias e tomar minha sombra como distração diária. Propositalmente, empurrava as pernas para todos os lados do banco, afim de que ocupassem todo o espaço e ninguém mais pudesse aproveitá-lo além de mim.

E quando eu me perdia em outros corpos, não houve uma vez que eu não soubesse o caminho de volta para me encontrar. Há um tempo, me sentia seguro em meus próprios braços. Tratei meus calos, do mesmo modo que os tinha criado, mas não deixei outras mãos me tocarem, além das minhas.

Carolina, há um tempo, eu estive cheio de mim.
Eu nunca fui tão vazio.

 - Pega um copo, toma um gole, bebe do meu.

 Transborde em mim, Carolina. Não me deixe ser inteiro somente com as minhas próprias metades. Deixe-me transbordar em ti também. Há um espaço para você no meu velho banco

quinta-feira, 26 de julho de 2012

egoísta


Aquele grito fino arrepiou-lhe a espinha como nenhum vento frio tivesse conseguido antes: exclamava exageradamente berros de apatia para todos os cantos. Suas pernas estremeceram de tal maneira que, após ter conseguido manter-se em pé, orgulhou-se.

- Eu poderia ter berrado mais alto – disse aos próprios pensamentos – quem sabe alguém, além de mim mesmo, pudesse me ouvir, mas não há quem deseje escutar meus ruídos e demônios da madrugada – completou.

Seus pensamentos retribuiu-lhe a conversa: - assegura-lhe qualquer cobertor que te aqueça a cada grito que tire o calor do seu corpo, assim como consegues assegurar esse falso frescor cotidiano que te cai tão bem e nada parecerá errado.

sábado, 31 de março de 2012

não é o cheiro, é você

Hoje acordei cheirando a clichê e rotina, o que não me deixa surpreso. O grande desastre, porém, foi a falta d’água no banho. Como estava mais de vinte minutos atrasado, tive que vestir as roupas a seco e correr para pegar minha senha no mundo.

Eu, que normalmente não atraio olhares, fui perseguido por olhos de variados tamanhos e cores. A princípio achei que fosse coincidência, mas já estava cansativo me desviar de tantas miragens.
Apressei os meus passos, ao ponto de precisar segurar firmemente meus pés no chão, mas lá estavam os olhos de censura mais uma vez. Logo percebi o motivo de tamanha frustração: o odor que eu estava exalando.

É claro! O cheiro de clichê e rotina juntos é de embrulhar o estômago até de peixeiro que caminha sob o sol. Eu, que geralmente sou regido por gestos neutros, chamava toda e qualquer atenção.

Um lenço umedecido foi o bastante para tudo voltar como antes: sem olhares ao meu redor. O cheiro ardido de “parafernálias previsíveis” foi amenizado do meu corpo. Nunca achei que a falta de banho me renderia alguns minutos de atenção no mundo. Por alguns instantes, me senti visível, original...