quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

saudade

Saudade que vem de longe, que leva e traz e me consome
Castiga o peito e deixa marcas
Frenética passeia e ao caminhar, devaneia.
Ícone da desgraça distinta que leva o tolo à solidão
Ao chegar ingênua, oh doce menina
Com gosto de fel me beija a face como prêmio de consolação.
E dentro de mim geme e grita um eco forte da sua voz
Sua carne
Sua alma
Seu pecado
Faz de mim o seu escravo
E a que trajava o tom sereno, veste o capuz de um algoz.
Saudade devassou meu ser
Observou
Vulgarizou
Se alojou
Ao sussurrar, não pediu licença
Pois a cada partida, tenho a sua presença
Que assim despida, o meu desejo alimenta.
Estou sujeito ao clichê da sua volta que me deixa tão patético
Um dia tomo outro rumo
Padeço
Sumo
Assumo
O que me faz sucumbir de joelhos ao procurar afeto.
Enfim, assim só me verás o tempo suficiente em que seus olhos poderão aguentar
Um objeto em minha mão e nada mais
Um barulho
Um estouro
Um ruído
Sonoplastia de uma vida corriqueira, entrelaçada aos prantos por um coração fugaz.
Em um corpo frio a Saudade, então, jaz
Ao procurar outro peito quente e vazio
Em suas viagens de leva e traz.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

receita

Um litro de verbo no imperativo
Uma xícara e meia de exclamações
Algumas gramas de sentimentos desvairados
Duas ou quatro mexidas na tigela
E após levar ao forno, pronto!
- Me ame! Faça você, meus dias mais felizes!

Ela sente sua falta ao ponto de conseguir morder os próprios cotovelos.
O que ela exprime por você, é algo que os homens chamam de “sentimento abstrato”.
Deve ser amor. Quem sabe?
Arrumou a cozinha, guardou a receita e esperou seu amor na janela, até hoje ela espera.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

a própria carne

És tão narcisista, que poderia servir a si próprio em uma bandeja de prata para uma mesa composta por louças de porcelanas. Ao seu redor, seus convidados mais ilustres: espelhos de todas as formas e tamanhos refletindo um só rosto. Ao olhar o prato principal, exposto à sua frente, sua boca salivaria como um cachorro preste a pegar um osso. Sua vontade de tomar para si, aquele pedaço de corpo, dono de um odor único, seria tamanha. Saciaria seus desejos mais obscuros.

No entanto, o desprazer de serrar a carne alheia destruiria a olho nu a forma mais perfeita, aquela que jamais vira em outras ocasiões. Enquanto isso, pensava se a sua boca seria digna de tocar o seu corpo ou o quanto prazer sentiria a sua pele ao ser saboreada por seus lábios.

Um copo de vinho era testemunha da bela ceia e os olhares contínuos eram divididos entre os espelhos e a suculenta carne na bandeja - ambos fascinavam o narcisista. Porém o perfeito banquete terminaria antes mesmo de começar:

És tão narcisista, que não chegaria a sujar sua própria imagem: o canibalismo em sua sociedade é um ato execrável e amoral.