quarta-feira, 7 de outubro de 2009

sem cor

Ela, que já não preferia o verde, preferiu escolher o amarelo como uma tentativa de inovar. O novo, de tom amarelado, encheu seus olhos que, por pouco, não saltaram sobre o balcão de compras. Fizera-se a cor verde sua companheira durante três anos e de nada reclamou.

Foste cúmplice das suas façanhas e ouvinte, quando o mundo lá fora dava-lhe as costas. Aqueles três anos não teriam sido suficientes para ela? Substituiria com tamanha convicção o interior esverdeado e suas recordações?

Deixava-se levar pelo entusiasmo da novidade que invadira a sua porta. Arriscou-se pelo outro, que, após mais três anos também cairia como o verde de outrora. No entanto, a tal novidade foi mais além, precisou apenas de três semanas e pintou o sete: o amarelo, que tomara lugar do verde, agora, desbotado, suja com êxito a parede que antes era enfeitada com um quadro do René Magritte.

O verde não volta mais
O amarelo pouco durou
Com medo da solidão, apelou para o bege - a única disponível.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

efeito dominó

Querida tia Clara,

Escrevo-lhe para compartilhar de grande dúvida que me afligi e, ao ser a senhora dotada de uma inteligência notável, não vi outro para que eu deposite tamanha confiança sobre tal assunto. Permita-me esclarecer, em curtas linhas, a minha confusão: como é de seu entender, a vovó possui dois periquitos, os quais foram trazidos para cá ainda pequenos. E, desde então, sua querida mãe os trata como membros da nossa família.

Vale ressaltar que, nesse momento ,vovó viaja para um descanso, mas logo estará de volta. Se não me falha a memória, o seu retorno está previsto para amanhã à tarde. Mas continuemos sobre os periquitos. Faz quatro dias da viagem dita e estou sozinho aqui em casa. Às vezes, assisto TV (ontem vi um filme chamado “Ressurreição”, sobre dois policiais que tentam achar um serial killer, que acredita ser a reencarnação de Judas), ou leio um livro. Tenho lido um muito bom, chama-se “Mente Assassina” do P. D. James. No entanto, esses periquitos, que mais parecem duas crianças mimadas e birrentas grasnam e me em estado de imensa raiva.

Bom, o fato é que antes de ontem eu soltei-os pela casa. Presumi que parariam de tentar chamar atenção. Mas estava tão entretido com o livro, que por um instante, me falhou a memória sobre tais criaturas e por obra do destino pisei em cheio em um deles. Esmaguei-o sem pudor! Fiquei parado ao olhar o ocorrido e corri para lavar os restos mortais da pequena ave. Senti um nojo que corroeu minha espinha dorsal por questões de segundos, um tipo de gosma avermelhada e amarela e ossinhos quebrados. O periquito da vovó ficara tão irreconhecível, mas, ao mesmo tempo, senti uma paz, afinal, a barulheira cessara.

Limpei toda aquela sujeira, porém o outro periquito me fitava. Ele sabia de tudo que acontecera naquela noite. Ele testemunhara a morte do seu amigo e estava prestes a contar tudo que vira. Coloquei-o na gaiola e, como se nada tivesse acontecido, sentei-me no sofá e pus-me ao ler o livro. Nessa hora, já estava na página de número duzentos. Um silêncio pairava pela casa, mas, tia Clara, veio uma angustia tremenda dentro do meu ser ao perceber que a pequena ave que restara, parecia triste.

O dia amanheceu, o periquito de nada quis levar ao bico e eu ainda precisava de uma bela desculpa para dar a vovó. O livro e a TV já não eram tão atrativos assim, mas algo chamava a me redimir perante a ave. Afinal, eu matara seu amigo e, agora, o que sobrara na sua gaiola era uma dor incontestável. Fiz-me um herói e dono do seu destino, quis tirar a sua dor: afoguei-o em um balde d’água e agora ele poderá reencontrar o seu aliado outra vez, pouco restara para fazer aqui na Terra, precisamente em sua gaiola, dei para si a felicidade de antes.

Suponho que a senhora também ache o certo, não é, tia Clara? No entanto, ainda me resta aquela maldita dúvida. Como citei nas primeiras linhas dessa carta, a vovó era apegada em demasia aos defuntos e creio que não ficará satisfeita com a morte alheia das criaturas verdes de bicos pequenos. Também sei que eles faziam o divertimento que mudava o semblante envelhecido dela. A senhora não imagina como partiu o meu coração ao vir a pequena cria desolada com a morte do seu ente querido, convenhamos que ele não passava de uma ave da qual pouco me familiarizava. Contudo ainda sim o ajudei a cessar a dor. Agora, pense então com a minha amada vovó? Terei eu que ser novamente o herói da história? O dono do destino? Se for pela felicidade da vovó...

Oh! Bela tia Clara, eu sei que se orgulhas de mim, espero ansiosamente a sua resposta.

Seu sobrinho
N. B.

terça-feira, 7 de abril de 2009

o querer do querer

Eu queria poder entender o meu querer
Saber querer o que quero
Querer, eu quero, só não sei o quê
Todos nós queremos um querer
Às vezes, quem quer não pode ter
Mas o poeta diz: “querer é poder”
O que eu quero está tão longe, mas sei que um dia há de chegar
Se os homens estiverem certos: saber querer é alcançar.
E se eu alcanço é porque quero ter
Porém será que este é mesmo o meu querer?
Se eu não quiser, o que fazer?
Ai, como eu queria entender o meu querer.

domingo, 15 de março de 2009

maldita esperança

Traga-me a guilhotina e me faça perder a cabeça em meio a essa confusão. Apenas por uma noite esquecer os meus pecados ao me aquecer em seu peito e afogar, em troca do seu afago, a minha lamentação.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

saudade

Saudade que vem de longe, que leva e traz e me consome
Castiga o peito e deixa marcas
Frenética passeia e ao caminhar, devaneia.
Ícone da desgraça distinta que leva o tolo à solidão
Ao chegar ingênua, oh doce menina
Com gosto de fel me beija a face como prêmio de consolação.
E dentro de mim geme e grita um eco forte da sua voz
Sua carne
Sua alma
Seu pecado
Faz de mim o seu escravo
E a que trajava o tom sereno, veste o capuz de um algoz.
Saudade devassou meu ser
Observou
Vulgarizou
Se alojou
Ao sussurrar, não pediu licença
Pois a cada partida, tenho a sua presença
Que assim despida, o meu desejo alimenta.
Estou sujeito ao clichê da sua volta que me deixa tão patético
Um dia tomo outro rumo
Padeço
Sumo
Assumo
O que me faz sucumbir de joelhos ao procurar afeto.
Enfim, assim só me verás o tempo suficiente em que seus olhos poderão aguentar
Um objeto em minha mão e nada mais
Um barulho
Um estouro
Um ruído
Sonoplastia de uma vida corriqueira, entrelaçada aos prantos por um coração fugaz.
Em um corpo frio a Saudade, então, jaz
Ao procurar outro peito quente e vazio
Em suas viagens de leva e traz.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

receita

Um litro de verbo no imperativo
Uma xícara e meia de exclamações
Algumas gramas de sentimentos desvairados
Duas ou quatro mexidas na tigela
E após levar ao forno, pronto!
- Me ame! Faça você, meus dias mais felizes!

Ela sente sua falta ao ponto de conseguir morder os próprios cotovelos.
O que ela exprime por você, é algo que os homens chamam de “sentimento abstrato”.
Deve ser amor. Quem sabe?
Arrumou a cozinha, guardou a receita e esperou seu amor na janela, até hoje ela espera.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

a própria carne

És tão narcisista, que poderia servir a si próprio em uma bandeja de prata para uma mesa composta por louças de porcelanas. Ao seu redor, seus convidados mais ilustres: espelhos de todas as formas e tamanhos refletindo um só rosto. Ao olhar o prato principal, exposto à sua frente, sua boca salivaria como um cachorro preste a pegar um osso. Sua vontade de tomar para si, aquele pedaço de corpo, dono de um odor único, seria tamanha. Saciaria seus desejos mais obscuros.

No entanto, o desprazer de serrar a carne alheia destruiria a olho nu a forma mais perfeita, aquela que jamais vira em outras ocasiões. Enquanto isso, pensava se a sua boca seria digna de tocar o seu corpo ou o quanto prazer sentiria a sua pele ao ser saboreada por seus lábios.

Um copo de vinho era testemunha da bela ceia e os olhares contínuos eram divididos entre os espelhos e a suculenta carne na bandeja - ambos fascinavam o narcisista. Porém o perfeito banquete terminaria antes mesmo de começar:

És tão narcisista, que não chegaria a sujar sua própria imagem: o canibalismo em sua sociedade é um ato execrável e amoral.