quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

a própria carne

És tão narcisista, que poderia servir a si próprio em uma bandeja de prata para uma mesa composta por louças de porcelanas. Ao seu redor, seus convidados mais ilustres: espelhos de todas as formas e tamanhos refletindo um só rosto. Ao olhar o prato principal, exposto à sua frente, sua boca salivaria como um cachorro preste a pegar um osso. Sua vontade de tomar para si, aquele pedaço de corpo, dono de um odor único, seria tamanha. Saciaria seus desejos mais obscuros.

No entanto, o desprazer de serrar a carne alheia destruiria a olho nu a forma mais perfeita, aquela que jamais vira em outras ocasiões. Enquanto isso, pensava se a sua boca seria digna de tocar o seu corpo ou o quanto prazer sentiria a sua pele ao ser saboreada por seus lábios.

Um copo de vinho era testemunha da bela ceia e os olhares contínuos eram divididos entre os espelhos e a suculenta carne na bandeja - ambos fascinavam o narcisista. Porém o perfeito banquete terminaria antes mesmo de começar:

És tão narcisista, que não chegaria a sujar sua própria imagem: o canibalismo em sua sociedade é um ato execrável e amoral.

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