domingo, 28 de dezembro de 2008

sonhe. Viva.

Quando tudo estava afundado em um silêncio imperecível, eu perguntei:
- Ana, o que você faz quando seus sonhos se realizam?
E tudo em volta pareceu apontar para mim:
- Fico feliz, agradeço a Deus!
O “fácil” não me atrai o bastante para me calar, uma resposta simples e objetiva como tal fez com que eu sentisse comichão:
- Tudo bem, mas se as pessoas vivem em prol dos seus sonhos, seus objetivos e vontades, quando o sonho se realiza a vida perde o sentido?
Mais uma vez exalou o cheiro de um sentido escopo:
- A pessoa procura outro para sonhar.
Não quis ser intransigente em persistir numa resposta, de ao menos um parágrafo e sai pela tangente:
- Então é um ciclo? Aquele que deixa de sonhar, deixa de viver?
E antes que as cores e objetos perdessem o interesse por mim e a calma caísse mais uma vez sob meus pés, ela me disse:
- Creio que sim. Creio que sim.

domingo, 7 de dezembro de 2008

não me leve a mal...

São Petersburgo - Rússia, 19 de abril de 1986

Querido,

Devo antecipar que encontrará ao decorrer dessa carta alguns pensamentos gastos e outras confusões. Quero também te oferecer um brinde ao nosso relacionamento. Nesse momento, me encontro segurando um copo que entorna receio.

Querido, sei que a partir de agora seus olhos ficarão mais atentos a cada palavra aqui escrita e entenderei os seus pensamentos algozes em relação a mim – eu te perdôo. Precipito também que as minhas escolhas não se assemelham a contradições, apenas me permiti voltar atrás.

Gostaria de retornar ao momento em que joguei sob você um entulho de frases sem sentimentos. Porém, dizer que te amava era o único jeito que poderia te manter ao meu lado, no instante em que me dizia adeus.

Ó querido, não era segredo o tempo que você esperou para ouvir essas três palavras da minha boca, mas não me leve a mal, eu estava apenas apavorada. Acostumada com a sua presença, não me preparei para viver apenas comigo.

Por favor, deixo claro que meu gostar por você é pulsante, és especial. No entanto, presumo que me apaixonarei outras vezes e sentirei pulsante até encontrar outros queridos.
Não fique triste, te guardarei no meu baú de recordações junto aos meus livros de literatura. Sinta-se honrado.

Sinto-me honrada também, pois sei que, diferente de você, não estarei guardada em uma caixa de lembranças, lacrado com a frase “frágil”, mas caminharei por todos os lados do seu corpo e coração que deve estar fervendo de euforia ao terminar de ler essas últimas linhas.

Com gostar, Cassie

P.S. Seus sapatos ficaram aqui em casa.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

o oposto

Eu queria ter consenso com o que falo e o que penso, mas provavelmente ninguém iria entender minhas ideias a partir do momento em que elas saíssem por minha boca. No entanto, não costumo prendê-las em minha cabeça. Para mostrá-las, decidi moldá-las: tiro o excesso do excêntrico, mudo uma ou duas vírgulas, às vezes, perdem o seu sentido real, mas se tornam compreensíveis.

Em outros casos, me faço perguntas surreais, auto-avaliação tola, porque eu sei que não me darei nenhuma resposta- não passo no meu próprio teste de adivinhações. Não sinto o que normalmente são vendidos nas caixas coloridas e mostrados em vitrines pessoais. Esses anseios exibicionistas encontrados nas pessoas, que se ligam e desligam por questões de segundos.


A acepção dentro de mim é aquela em que preciso inventar e cavar buracos para esconder os restos que ficam a cada partida – existem fósseis dentro de mim, sentimentos de longas datas em perfeito estado.

Eu ainda sinto...

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

a resposta

Acende um cigarro, pensa positivamente e ler mais uma vez o discurso escrito em papel de ofício. Sem nenhuma linha para auxiliá-lo na escrita, suas palavras parecem dançar por todos os lados da folha de papel lisa, quase escapando de suas vistas. Tudo em vão. Não adiantou escrever as mais belas poesias ou explicações para que Cassie viesse perdoá-lo. Elas não iriam fazer efeito no instante que estivessem olho a olho. Apenas o deixaria de mãos abanando, umas covardes! Sumiram todas! E pensava que estavam tão guardadas em sua cabeça, pareciam ser grandes e velhos amigos.

Só, sem as palavras moldadas e nem o papel amassado, em suas mãos um coração que batia fervoroso, sequer tinha aquela velha piada de bolso, apenas um sorriso amarelo e lágrimas presas aos olhos. Elas não poderiam ser entregues assim tão facilmente, ficariam atreladas em seu olhar até certo tempo. Em sua frente, Cassie, aquela que é seu aconchego, o refúgio que tanto procurou nas noites frias, a resposta para as dúvidas que transbordavam em seu peito.

Naquele instante, ele se viu como criança indefesa, que acabara de ter feito traquinagem e nada poderia lhe salvar do belo castigo, a não ser um choro contagiante que o tirasse da posição de “culpado” e o levasse ao banco dos inocentes. E foi assim. Pouco importara as palavras, que por um tempo foram esculpidas para que se encaixassem perfeitamente naquela situação e que minutos antes de serem entregues, espatifou-se em mil pedaços. Ele sentia que seu coração chorava e precisava se ausentar da culpa, ele queria de volta o pedaço que faltava, quando foi levado por Cassie ao dizer que tudo chegara ao afim.

Sobre seus pés foram cuspidas todas as desculpas e sentimentos de mágoas que o sufocava. Sua boca era intérprete perfeita do seu coração - ela conseguia traduzir, da melhor forma, o que o pobre músculo ensanguentado sentia no momento. Naquele instante, ele não passava de um corpo, apenas um corpo. Seria a única vez que faria isso, uma chance a mais era o seu único desejo.

Ele não prometeu o céu, a Terra ou mar, ele não jurou perfeição, quiçá amor eterno, não fez metáforas, tampouco se estendeu em clichês, apenas disse: “eu posso passar por aquela porta agora e nunca mais ouvirás sobre mim ou posso fazer você se sentir viva, a cada manhã, quando meus lábios tocarem os seus, porque ainda que a manhã do amanhã não chegue, você vai saber que até o último momento existiu amor”.

A resposta de Cassie? Ainda não sei.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

anti-herói

Para quando estiver se afogando em um copo cheio de tédio.



Corte os pulsos da liberdade
Mate seu herói e enalteça a heroína
Deixe a noite te anestesiar
Anistie seus temores
Faça uma arte barroca, seja piegas
Empregue a metonímia e tome a morte.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

eu sou...

No orfanato, eu sou a infância
Na profecia, eu sou o pagão
Na saudade, eu sou a lembrança
No medo, eu sou a escuridão.
Na dor, eu sou a morfina
No homem, eu sou razão
Na inocência, eu sou menina
Na casa, eu sou porão.
No jogo, eu sou o blefe
Na família, eu sou o sozinho
Na juventude, eu sou o êxtase
Na plentiude, eu sou o vinho.
Na música, eu sou a liberdade
Na pobreza, eu sou o excesso
Na tristeza, eu sou a vaidade
Na hipocrisia, eu sou o séquito
Na inércia, eu sou a mudança
No amor, eu sou a cruz
Na esperança, eu sou a vingança
Na cegueira, eu sou a luz.

domingo, 8 de junho de 2008

trevo da sorte

Como criança levada você passeia em meus pensamentos sem resquício de preocupação. Ao correr para todos os lados, percebo sua insignificância com o passar das horas - apenas o tudo, que é tão pouco, lhe interessa.

Desejei muitas vezes evitar o seu passeio infantil, porém foram somente vontades falsas e fracassadas. Tenho força e, ao mesmo tempo, declino. Coragem e medo na mesma proporção. Prefiro a cor vermelha, mas adoto a amarela.

Por que precisou partir sem me avisar? Ainda existia muito de você em mim, quando desejou outro caminho. Ainda existe muito de você em mim, quando não está mais aqui.

Farei uma aposta somente comigo e, no final, quem ganhará é você. Ao desejar te conter, acabei me descontrolando. Ao meu redor, os objetos se movem sem controle e eu só gostaria de lembrar onde coloquei meu trevo da sorte.

Obrigue-me a gostar do seu gosto e gastar minhas gorjetas, ainda assim, lhe sorrirei em troca. Um pouco de amor e ódio, calor e frio, riso e lágrima em minha vida e um copo da café para a viagem, por favor.

Volto a dormir para lhe encontrar e ao amanhecer procurarei por meu trevo da sorte, boa noite.

quarta-feira, 26 de março de 2008

sou seu porto seguro. És meu ponto fraco

Não te negarei a minha vida como um refúgio que precisa, porém não lhe entregarei a cruz e a espada, ao ponto em que eu me torne vulnerável.

quando meu eu quer falar



Perguntaram qual o meu medo, eu respondi que era de mim, mas isso antes de me conhecer - compreender quem realmente sou. Passei inúmeras noites em claro junto com a incerteza, que era a minha companhia e me protegia de mim mesma.


Hoje, eu me conformo e me anistio a cada dia. O meu eu longe de mim, Deus, eu não me reconhecia! E se ainda me perguntam se o medo ainda vem: não é mais medo de mim, é ser o medo de alguém.