quinta-feira, 30 de julho de 2009

efeito dominó

Querida tia Clara,

Escrevo-lhe para compartilhar de grande dúvida que me afligi e, ao ser a senhora dotada de uma inteligência notável, não vi outro para que eu deposite tamanha confiança sobre tal assunto. Permita-me esclarecer, em curtas linhas, a minha confusão: como é de seu entender, a vovó possui dois periquitos, os quais foram trazidos para cá ainda pequenos. E, desde então, sua querida mãe os trata como membros da nossa família.

Vale ressaltar que, nesse momento ,vovó viaja para um descanso, mas logo estará de volta. Se não me falha a memória, o seu retorno está previsto para amanhã à tarde. Mas continuemos sobre os periquitos. Faz quatro dias da viagem dita e estou sozinho aqui em casa. Às vezes, assisto TV (ontem vi um filme chamado “Ressurreição”, sobre dois policiais que tentam achar um serial killer, que acredita ser a reencarnação de Judas), ou leio um livro. Tenho lido um muito bom, chama-se “Mente Assassina” do P. D. James. No entanto, esses periquitos, que mais parecem duas crianças mimadas e birrentas grasnam e me em estado de imensa raiva.

Bom, o fato é que antes de ontem eu soltei-os pela casa. Presumi que parariam de tentar chamar atenção. Mas estava tão entretido com o livro, que por um instante, me falhou a memória sobre tais criaturas e por obra do destino pisei em cheio em um deles. Esmaguei-o sem pudor! Fiquei parado ao olhar o ocorrido e corri para lavar os restos mortais da pequena ave. Senti um nojo que corroeu minha espinha dorsal por questões de segundos, um tipo de gosma avermelhada e amarela e ossinhos quebrados. O periquito da vovó ficara tão irreconhecível, mas, ao mesmo tempo, senti uma paz, afinal, a barulheira cessara.

Limpei toda aquela sujeira, porém o outro periquito me fitava. Ele sabia de tudo que acontecera naquela noite. Ele testemunhara a morte do seu amigo e estava prestes a contar tudo que vira. Coloquei-o na gaiola e, como se nada tivesse acontecido, sentei-me no sofá e pus-me ao ler o livro. Nessa hora, já estava na página de número duzentos. Um silêncio pairava pela casa, mas, tia Clara, veio uma angustia tremenda dentro do meu ser ao perceber que a pequena ave que restara, parecia triste.

O dia amanheceu, o periquito de nada quis levar ao bico e eu ainda precisava de uma bela desculpa para dar a vovó. O livro e a TV já não eram tão atrativos assim, mas algo chamava a me redimir perante a ave. Afinal, eu matara seu amigo e, agora, o que sobrara na sua gaiola era uma dor incontestável. Fiz-me um herói e dono do seu destino, quis tirar a sua dor: afoguei-o em um balde d’água e agora ele poderá reencontrar o seu aliado outra vez, pouco restara para fazer aqui na Terra, precisamente em sua gaiola, dei para si a felicidade de antes.

Suponho que a senhora também ache o certo, não é, tia Clara? No entanto, ainda me resta aquela maldita dúvida. Como citei nas primeiras linhas dessa carta, a vovó era apegada em demasia aos defuntos e creio que não ficará satisfeita com a morte alheia das criaturas verdes de bicos pequenos. Também sei que eles faziam o divertimento que mudava o semblante envelhecido dela. A senhora não imagina como partiu o meu coração ao vir a pequena cria desolada com a morte do seu ente querido, convenhamos que ele não passava de uma ave da qual pouco me familiarizava. Contudo ainda sim o ajudei a cessar a dor. Agora, pense então com a minha amada vovó? Terei eu que ser novamente o herói da história? O dono do destino? Se for pela felicidade da vovó...

Oh! Bela tia Clara, eu sei que se orgulhas de mim, espero ansiosamente a sua resposta.

Seu sobrinho
N. B.

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