quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

não ser intenso

Sou um copo d’água transbordando, porém muitas vezes desejei estar vazio.
Ansiei ser um corpo oco, frígido e sem cor.
Um corpo jogado as traças, sem vida e memória, que se levanta ao amanhecer sem causar barulho e nem sentir arrepios.
Mas sou uma obra melodramática.
Eu sinto o rubor em minha face e comichões no meu interior - nas minhas entranhas.

Sou o maior grau de intensidade queimando em brasas.
No entanto, desejo estar seco: sem suor e lágrimas.
Não jogo dados para cima e não tenho cartas em minha manga.
Meu peito é aberto.
Faço escolhas e não apostas.
Porém para quê? Para quem?
O maior peso que levo é o de ser alguém e de me levar como sou.
Não cogito mais absorver, mas deixo-me levar.
Sem sentir nenhum frescor, por favor.

Recuso-me a qualquer sensação e toda a antítese que está por vir.
Declino qualquer conflito e é áspera a sinestesia.
Deixe-me escolher o sentimento que me convém.
Essa profusão cega meus olhos.
Deixe-me esvaziar, sem experimentar, sem pestanejar...
Não quero mais o vento em meus cabelos, nem o cheiro das flores.
Eu só cobiço a ser um corpo calmo e sem gosto.
Sentir dói.

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