sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

o livro da capa branca

Em pé, lá estava eu.
Em mais uma fila dessa cidade que cheira a desordem.
Na tentativa de seguir adiante, após sacar algum dinheiro.

Apesar do incômodo que me cercava não recorri ao tempo como uma das formas de expressar a minha ansiedade. Eu não estava preocupado com as horas, mas não me importaria se a fila fluísse com rapidez. Na minha frente, duas mulheres. Duas idades distintas e semelhança física. Minha ideia de parentesco entre ambas foi confirmada quando peguei suas frases soltas.

"Mãe, pára com isso!"

Ouvir conversas alheias em filas, me serviu como distração. A partir disso, comecei a imaginar o que o senhor de blusa branca e pente azul no bolso, tanto cochichava ao olhar para o chão. Parecia brigar com a própria sombra.

E, apesar da minha aguçada imaginação tentar me desviar para outros diálogos, a curiosidade , que levo debaixo do braço, gritou em direção às duas mulheres na minha frente. De repente, aquele diálogo intimista parecia tomar outras proporções: uma vez que que também me atingiu como tiro de bala perdida.

A garota, com idade entre 20 ou 22 anos, levava na mão direita um livro de capa branca, ( daria meus poucos trocados na conta corrente para saber o título) . Se só me restavam míseros centavos, para a mãe da garota do livro misterioso, o dinheiro era o seu principal motor:

"Precisamos tomar cuidado ao sair do banco. Imagina se somos assaltadas?"

A verdade veio à tona quando suas palavras cortantes atravessaram o meu ouvido e o da sua filha também. E, sem reação, evitou maior constrangimento e lhe deu as costas:

"Se formos para ser roubadas, que levem esse livro e deixem a minha bolsa! Mas quem roubaria isso? É só um livro, afinal."

E ouvi uma gargalhada de embrulhar o estômago.

Foi quando eu senti um borbulho que subia pelo meu esôfago e vinha em direção a minha boca. Na ousadia de cuspi-lo em bom tom: "EU ROUBARIA UM LIVRO!"

Contive-me.

Não que eu me orgulho em roubar, porém o descaso que aquela senhora tivera pelo livro de capa branca com título misterioso, carregado cuidadosamente por mãos delicadas, me tirou do sério e quase da minha posição na fila.


Pois bem, eu roubaria um, dois ou cinco livros! Usava de arma branca, preta ou colorida. Bolava planos maquiavélicos, burlava placas e esconderia pistas. Daria minha cara a tapa e, se fosse os livros da Lispector, até algemado seria.

Tocaria o terror com batidas fortes no meu bongô. Trairia e amordaçava. Sequestrava a bibliotecária e não devolveria na segunda-feira aqueles livros emprestados. Seria preso e condenado à pena de morte, julgado pelo mundo e reprimido por minhas ações, mas eu roubaria, sim, um livro. É tão valioso tanto quanto o seu dinheiro, guardado naquela bolsa encardida, ofuscada por entre seu braço.

Chegou a minha vez.
Saquei os trocados.
Ainda revoltado com aquela situação.

Pobre garota, do livro de capa branca, se eu ainda soubesse o seu nome. Poderíamos ser grandes cúmplices. Alguém bem que poderia escrever algo sobre aquela menina, aquele livro e algum roubo...

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